Dev Bhoomi, a Terra dos Deuses

(Portuguese translation by ana Luiza Feres of the article published by Never apart Magazine)

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Dois anos atrás, eu retomei minhas viagens à Índia para revelar seus mistérios. Armada com minha câmera e meus notebooks, pronta para descobrir tudo que eu pudesse aprender sobre as yoginis, decidi começar minha viagem em Kullu em Himachal Pradesh, uma vila aos pés dos Himalaias, que é parte do “Vale dos Deuses”, ou Dev Bhoomi em Hindi.

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Nessa região, os templos são conhecidos pelas suas estruturas de madeira e as inumeráveis Devtas que os habitam. Essas deidades da vila, Grãmadevatã, não tem nenhuma relação com o clássico panteão hindu. Elas existem apenas nas suas vilas e são representadas por máscaras de cobre, chamadas mohas. Para algumas cerimônias ou festivais importantes como Dussehra, as devtas são transportadas em palanquins decorados para a ocasião. A procissão então viaja com música, às vezes por longas distâncias. É acompanhada pelos habitantes da vila e seu Gur, o xamã que canaliza e fala pela deidade. O xamã e ocasionalmente os aldeões entram em transe, recebendo os desejos da deidade. 

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Me dizem que na frente do cortejo, soam trombetas enormes para espantar as yoginis, que poderiam atrair a substância da deidade para fora da máscara que ela habita. Yoginis são deusas representadas em grupos que encontram seu lugar entre deuses e homens. Se noutra parte da Índia a representação em forma de escultura é muito elaborada, aos pés dos Himalaias sua forma é primitiva. A presença de yoginis é enfatizada pelos tecidos vermelhos ou pedras erguidas no meio de pequenos templos de madeira que fazem fronteira com os principais santuários. Os hindus locais as chamam de jogini ou jogni. Intimamente conectadas com a natureza e os elementos, elas vivem em árvores, perto dos rios, em lugares quietos e distantes. Quando pedimos explicações, rapidamente nos damos conta que os moradores locais preferem não falar sobre elas. 

Hoje, Manjeet é meu guia. O jovem me conta que conhece um templo de yogini para o qual pode me levar, então saímos ao amanhecer. Ao fim de duas horas navegando pelas estradas da montanha chegamos a uma vila onde paramos. Eu sigo meu guia para dentro de uma pequena barraca de metal onde vejo nas paredes alguns pôsteres desbotados de Bollywood e três senhores vestindo tradicionais casacos e chapéus, jogando cartas. Eu aceito um chai (chá indiano) que o jovem garçom de cabelo na altura dos ombros me serve. É quase anacrônico nessa paisagem. Estou rodeada de homens, num espaço de homens. Eu não digo nada. Eu não pergunto, eu observo e ouço. “Alguém vai se juntar a nós”, diz Manjeet, “temos que atravessar a aldeia com alguém daqui para evitar problemas com os locais”.

Crenças locais são ligadas às suas aldeias. Cada aldeia tem sua divindade, isto é, sua força e energia. Não é qualquer um que pode entrar ali. Se beneficiar da energia da divindade da aldeia é um ato que não pode ser feito de maneira leviana. 

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Eu me sento ao lado do meu motorista enquanto um dos senhores se senta no banco de trás, prontamente seguindo de outro jovem da aldeia com uma sobrancelha carregada. Ninguém fala oi, como se fosse um detalhe supérfluo. Eu gosto desse silêncio, onde nada é dito. 

A aldeia Nattan não é de fácil acesso. O caminho termina num riacho onde temos que deixar o carro e continuar a pé. Na entrada, as mulheres estão empoleiradas como pássaros coloridos nas grades de uma casa elevada, enfeitadas com lenços coloridos na cabeça e vestindo o tradicional pattoo (grandes cobertores habilmente drapeados e presos ao pescoço por uma corrente de prata). Todas as faces se voltam para nós. Meus guias avançam rapidamente. À beira do caminho, vejo crianças brincando, mulheres lavando roupas e às vezes alguma cara tímida e curiosa aparecendo por entre as frestas das portas, nos observando enquanto passamos. Eu pergunto a Manjeet se posso parar para fazer algumas fotos, e ele diz “não, não agora. Quando voltarmos. Agora temos que ir.” Obviamente não tem nada a ver com uma visita turística. Cruzamos essa aldeia que parece existir fora do tempo. Uma atmosfera tribal e imutável reina ali. Eu sinto que não tenho todos os códigos e que muitas coisas escapam ao meu entendimento. Seus olhares, o jeito deles de andar, todas as regras de cortesia, castidade, respeito que entram no jogo; é um diálogo não falado que eu não tenho, então fico com o que sinto. 

Finalmente mergulhamos na floresta. Ela aumenta abruptamente entre pedras e pinheiros. Quarenta minutos depois, eu finalmente vejo o telhado de uma construção de madeira desenhada entre os galhos. Quando tiro meus sapatos, ando ao redor do templo Shanchar, já que não podemos entrar pois infelizmente está trancado. Manjeet orgulhosamente me mostra as deidades que realmente não tem nada das yoginis que eu conheço, mas são simplesmente várias esculturas de deusas, incluindo a clássica Mahisãsura. 

No seu livro “Deusas Hindus”, David Kingsley explica como nas aldeias a divindade local é muito mais importante que aquelas do panteão clássico. A deusa local não é apenas a esposa da aldeia, sua amante, casada com ela. Ela é a divindade que precede e portanto possui a aldeia. Assim, qualquer escultura será capaz de incorporar a forma da deusa em seu arquétipo mais essencial. O termo yogini é vago. É simplesmente uma forma da deusa, ao invés da deusa em sua forma própria. Algumas semanas depois, durante meu encontro com Mark Dyczkowski, ele me explicou que, de acordo com seus estudos, todas as deusas são yoginis. Yoginis são, portanto, não tanto um tipo de divindade que gravita em paralelo às divindades predominantes num plano horizontal; elas estão mais num plano vertical, uma encarnação que qualquer deusa pode incorporar. Essa análise requer um entendimento da ideia de uma deusa não apenas em termos de sua representação, mas também no plano esotérico onde sua forma varia dependendo do plano no qual opera. 

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Depois de quinze minutos, retomamos nossa caminhada e continuamos a mergulhar entre as árvores altas. Nos troncos, os tecidos vermelhos, sinal da deusa, se torna cada vez mais frequente. Manjeet explica para mim que nesta clareira muitas estátuas estão enterradas. A terra está cheia de energia, e aqui, os moradores da aldeia vem para fazer pedidos aos Deuses ou para curá-los. Um pouco adiante, se pode ver pedras maciças no meio da grama. O senhor explica que as estacas enterradas no chão demarcam um espaço circular onde é proibido entrar. É um círculo de yoginis chamado jiddi, com forças mágicas e sagradas.

Nesse lugar esotérico, o mundo sutil limita o mundo grosseiro. Divindades não são entidades inalcançáveis, elas representam forças vivas com quem qualquer um pode interagir. 

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Voltamos para a vila. As casas com arquitetura tradicional e madeira esculpida são elevadas, o que permite que os animais se aqueçam no primeiro andar e aqueçam a sala onde as famílias vivem durante o inverno. Nos telhados, feijão e milho secam ao sol e as crianças não conseguem não vir nos encontrar dessa vez. Depois de uma curta parada na aldeia, continuamos nossa caminhada para outro Bandhar, esses prédios preservados para guardar os atributos reservados aos deuses, e templos das deusas (Templo de Tripurasundari na aldeia de Nagga e o Templo Chamunda na aldeia de Nashala). Prestamos respeito frente à pedra elevada.

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Ainda tem lugares onde o mundo dos deuses e do homem se tocam; onde céu e terra se encontram. Nas coisas simples, na vida diária, a noção do divino dá o ritmo para a ação de todos. Uma noite, conforme mergulho no sono, me vejo meditando no meu sonho. Sinto que atrás de mim algo está acontecendo, mas não posso ver. De repente, sinto claramente que as yoginis estão rindo de mim: elas riem porque não vejo a hora de cruzar o mundo procurando algo que na verdade está tão perto de mim, logo ali, atrás do meu olhar. Trago esse espaço de volta para mim, já que ele existe para além da geografia, e está claro que eu não posso ir em direção a ele, então eu simplesmente paro e deixo que ele tome conta de mim.

Agradeço a Aadi e seus amigos que abriram a porta do seu mundo, o que me permitiu descobrir Kullu e seu vale. 

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